Crônica de uma anta

− Você pode me dizer como tudo aconteceu?

− Não tenho certeza, ‘seu’ Francisco. Foi tudo tão rápido. Lembro-me de uma luz se aproximando bem rápido. Fiquei meio cega até sentir uma dor lancinante no  corpo.

− Hum…

− Já tinham me dito para evitar aquela trilha dura e acinzentada. Mas como eu podia saber? Só queria cruzar para chegar ali do outro lado, onde tinha comida.

− Entendo.

− O que mais me intriga é que eu tinha certeza que ele ia desviar de mim. Eu nem estava no meio da trilha dele! Estava no cantinho….

− No mundo dos homens não funciona assim. Não existe logica para a morte.

− O senhor quer dizer que eles matam… por matar?

− Sim, eles são os únicos seres que matam da própria espécie sem uma razão específica. O que dirá da vida de outra espécie.

− Eu sempre aprendi que matar fazia parte da sobrevivência, da luta entre presa e predador. Será que eu era uma presa para ele?

− Certamente não. Mas você estava na frente. E eles têm pressa.

− Pressa de quê? Era no meio da noite.

− Nem eles sabem mais porque correm tanto. Correm para ir, correm para voltar. Aí depois a vida passa e eles correm para aproveitar quando já não tem mais tempo.

− Mas… mas, não entendo!

− Nem eles entendem…

2013_adriano-gambarini