Xavante e força do Ser

Findo o ano com a força dos Xavante amarrando meus punhos. Segui ao movimento dos remos silenciosos cortando águas escuras, onde não há contatos ilusórios ou digitais. O que há é real, é tocável, é cheirado à fumaça densa de lenha queimada. Lá a energia vem do olhar forte de um povo guerreiro, da luz amarelada do candiero, da brincadeira ingênua e infantil das gerações futuras. Em outros cantos, nas rabetas que cortam furos está a sabedoria empírica dos povos ribeirinhas; nos tachos quentes o calor amarelado da sobrevivência e da farinha.

Nas matas ainda primarias as aves ensurdecem as réstias de sol. Nos campos devastados pela ganância branca, surge a tradição ávida em relembrar os entes, passados.Já não me basta apenas o registro. Ou se um dia assim foi, brota agora o desejo incondicional do desapego. Pois é fugaz o documento sem o aprendizado; assim o é volátil, sem o compartilhar. Mais um novo ano está aí, no calcanhar de aquiles, daquilo e disto que já não sabemos se existirá ou não. E aos incautos que insistem em blasfemar que tudo acaba: percebam que o fim é só o recomeço num outro estado daquilo que deixou de ser.

A recriação começa se algo finda. Simples.

Reinicio com a força dos Xavante nas entrelinhas desta tão humilde retratação. Sentir a cena antes do gesto incondicional de registrar. Ou só olhar.

E quem sabe, num momento lúcido de ser, o ver.